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Ancião

Nuno ancião, talvez já não te recordes, mas escrevo-te (ou escreveste-te) esta carta aos 44 anos. O mundo em que vives, nesse ano de 2056, deve ser tão inimaginável para mim, como o mundo de hoje era inimaginável há 40 anos.
Espero que durante estes 36 anos que já viveste e que é o meu futuro, tenhas dado o teu contributo para a mudança do rumo de destruição da natureza que a humanidade está a seguir hoje. Aproxima-se a hora de passarmos o testemunho e o planeta às próximas gerações.
Já não o vamos entregar como o encontramos. Há perdas que já são irreversíveis. Espero que tenhas conseguido juntar-te ativamente aos que lutaram e lutam para mudar o rumo da destruição.
No livro que ando hoje a ler, com o título “Tudo o que não vemos” (espero que ainda te lembres), li que hoje, em 2021, os humanos são 32% da biomassa dos mamíferos do planeta e que 65% são mamíferos criados para alimentação dos humanos, restando apenas 3% dessa biomassa para os mamíferos selvagens, onde se incluem as baleias, os elefantes, os leões e todos os outros mamíferos selvagens.
Sei que estás ao lado da Luísa na aventura do envelhecimento. Que seríamos nós sem ela, Nuno? Vocês os dois estão no ano de 2056… que terá acontecido entretanto? Que pessoas conheceram? Têm o carinho e a atenção da família e dos amigos? Conseguiram transmitir o que aprenderam? Como está a comunidade da HabitaRegen? Que teremos conseguido construir em comunidade?
Espero que tenhamos conseguido contribuir para aliviar o sofrimento dos mais vulneráveis, construindo abrigos seguros para as pessoas vítimas das desigualdades, tanto nacionais como imigrantes. Abrigos físicos, económicos e emocionais. Mas acima de tudo, que tenhamos contribuído para combater as causas das vulnerabilidades.
Provavelmente a saúde já não vos deixa dançar, mas ainda conseguirão fazer passeios pedestres? E as viagens? Já deve ser possível viajar sem poluir. Espero que tenham feito muitas viagens com SERVAS e semeado amigos por todo o mundo. Tenho a certeza que continuam a receber SERVAS de todo o mundo, a menos que a saúde não vos permita.
Espero que tenham quem vos abrace com Xis-corações muito apertados e vos encha de carinho!
Imagino-vos numa noite, rodeados de amigos de todas as idades à volta de uma fogueira, a contarem as vossas aventuras aos mais novos, de tempos estranhíssimos para eles: quando nem sequer havia telemóveis nem internet, em que as pessoas andavam com carros a gasolina, de quando veio uma pandemia, das vossas viagens… será que alguém nos vai dar atenção? Será que alguém quer ouvir o que dois velhos de 80 anos têm para contar?
E eu? Eu hoje, tenho ouvido o que os velhos de hoje têm para me contar e para me ensinar?
Nuno ancião, um Abraço apertado e até daqui a 36 anos!
Carta dos 80 anos
Nuno Roboredo

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